quinta-feira, 11 de março de 2010

.:A Corda:.


Não importa por onde olhassem, a corda já estava no lugar, como algo ordinário que é.
“O lugar menos suspeito sempre é debaixo do nariz”, pensou.
Claro que poderiam achar que era aquela corda pendurada no canto, mas entre tantas? Claro que poderiam achar que era uma corda, se ainda houvesse pescoço. Poderiam também achar que era o cutelo, tão afiado e impecavelmente limpo, mas se ainda houvesse pedaços. Achar que a churrasqueira dera cabo de tudo, como sempre. E os porcos, tão empanturrados, por incrível que pareça, destes, ninguém pensaria nada.
Afinal, não estavam ali para invetigar, como se poderia presumir, uma família normal como qualquer outra, como se poderia presumir, para fazer justiça a um injusto.
Apenas dito como desaparecido, apurando e levando, apenas, todas as evidências de valor.
Parecia um pequeno preço a se pagar pela liberdade, tanto do tirano, quanto das grades.
E num acordo silencioso, entre pessoas que não poderiam char muito mais do que já sabiam, de por que aquela situação tenebrosa culminou na corda, todos se retiram e assim contemplam um novo recomeço, com passos assustados de início, mas finalmente com ar para respirar.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

.:Corpo, ou como morrer completamente e nunca ser encontrado:.


“Tá mais um corpo estendido no chão”
Cantarola o jovem enquanto caminha para a rua, uma canção que ilustra muito bem aquele local por onde o jovem caminhava, não raro era possível encontrar pessoas deitadas, vivas ou mortas, ébrias ou sóbrias. O jovem está pensando nesse momento sobre sua vida, sobre seus planos para esse fim de semana. Tinha muitos planos, estava na idade de ter planos para todos os dias, pensava nas suas namoradas (é tinha várias), suas drogas (também tinha várias) e suas casas (ele sempre tivera muitas opções e optou por não escolher).
Enquanto isso, fora de suas infinitas opções particulares, o mundo ainda girava. E este mundo se choca com o garoto. Uma multidão. Vozes altas de todos os timbres ecoavam na mente ocupada do jovem. E ele repara. Para. E tenta observar. “O que estão todos observando? O que poderia atrair o interesse de todos? Curiosos”. Bem que ele tentou não ser seduzido pela curiosidade, mas não teve muita escolha, acabou por se aproximar mais do centro de todas aquelas formigas, queria descobrir o que realmente acontece.
Bem, o jovem é alheio a tudo, suas mulheres, drogas e casas fazem com que seu tempo seja dedicado a tudo isso, não sabia mais nada sobre o mundo e muito menos dele mesmo. Até alguns amigos dele disseram que um dia ele iria se olhar no espelho e não mais saberia que era ele quem a imagem estava encarando.
Depois de empurrar muitas pessoas, algumas até distantemente reconhecíveis, ele chega e se depara com um jovem morto, com uma bala e na mão uma trouxinha de maconha, diziam as muitas bocas que ele morreu após tentar fugir com a droga de um qualquer. Mas como ele também era um qualquer, não faria muita diferença para o crime em eliminar essa pessoa que nem mesmo tinha um nome para se lembrar. “Pode ir atrás dele e matar, ninguém sentirá falta mesmo” disse um chefe da boca quando soube que seu cliente qualquer tinha fugido com a droga.
Após olhar com indiferença para o corpo, o jovem seguiu com sua rotina diária à lugar nenhum, enquanto seu corpo estava ainda estendido no chão e onde ficaria até que uma ambulância levasse ele para o IML.

Daniel Faleiro

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Casal



Foto: Grivicich

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Danke


"Danke, Mademoiselle." Disse o velho a uma moça que deu uma caixa de papelão.
Desde que chegou não se lembra de muita coisa daqui. Foi se esquecendo aos poucos e só se recordava do que era mais recente. Lembrava muito do último lugar que esteve. Lembrava de uma menina sorrindo. Lembrava dos dias. Lembrava que queria ser lembrado. Ultimamente estava lembrando menos.
Catava papelão na rua, era como conseguia o seu dinheiro, era basicamente o que conseguia fazer, o que seu orgulho deixava.
Ia voltar! Tinha convicção. Só não tinha clareza.
Andava muito, quase a cidade inteira. Andava para sobreviver e para ver a menina do sorriso, que há algum tempo não sorria mais.
Na verdade ele nem via mais a menina praticamente. Isso o deixava triste... Muito... Mesmo.
Andando perto do canal ele pensava no papelão, na caixa, na volta. Por cima?
Então viu um arco-íris no meio do canal imundo. As cores tão lindas que maravilhavam seus olhos, que sempre maravilharam. Seu peito se encheu naquele instante. Se virou para falar com a menina, mas ela não estava lá.
Ao longe viu o reflexo do sol piscando num instante. Aquilo que entendia bem. Bateu uma pontinha de inveja por não ser ele atrás do reflexo. Sorriu e penseou (se consolando pela falta da menina) que não precisaria mais se lembrar de ser lembrado. Já estava a mais um passo de poder ir.
Bateria um orgulho tremendo se soubesse, que por trás do reflexo daquela lente, estava a menina para lembrá-lo.

Grivicich
Foto: Daniel Faleiro

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Reflexos


“Há quanto tempo que não encaro o espelho?”

“Será que não me reconheço por não olhar ou nunca mais olhei por não me reconhecer?”

Essas foram as primeiras palavras que disse na parte da manhã enquanto me vestia, olhava meu reflexo (será nosso reflexo quando não nos reconhecemos?), era estranho, parecia que estava mais magro, parecia que perdi uns quilos ou até mesmo a juventude. Não terminei nem de me vestir, o reflexo me incomodara de tal maneira que larguei tudo e fui de cueca tomar meu café.

Chegando na cozinha, preparei meu café de costume (na verdade não foi de costume, pois nunca preparei um café pensando em meu próprio reflexo), e sentado na cadeira comecei a pensar. “Onde foi que eu me perdi de mim mesmo?” “Quando foi que deixei de perceber que meu cabelo começara a cair também?”.

Bem não tinha muito tempo para pensar nisso, tinha que me arrumar para o trabalho. Engoli o café fui para meu quarto de novo.

Estando lá parado, não resisti e olhei de novo a forma que se apresentava diante do meu espelho. Foi então que comecei a perceber certos detalhes antes ocultos. Ele era loiro, tinha olhos negros como a noite e tinha uma grande cicatriz em sua testa. Neste exato momento que tive um misto de alívio e medo. Sorte por que não ser aquele que se apresentava diante de meu espelho (ora eu tinha cabelos negros e olhos claros! E nunca tive cicatriz!), mas assustado por não saber onde minha merda de sombra foi parar.


Já tinham se passado uns minutos quando percebi que não havia tirado o olho do espelho, maldito espelho. Amaldiçoei todas as pessoas que vinham em minha mente, minha namorada, meu chefe, meus amigos, a merda da pessoa que me vendeu esse espelho. “Que merda de espelho! Nem funcionar funciona!” pensei, mas logo voltei a minha sanidade a perceber que espelho nenhum no mundo poderia dar defeito, só se quebra. Quando inteiro não consegue nada além de reproduzir.

O desespero foi aumentando conforme eu percebia que algo de errado devia estar comigo. E que não adiantava de nada eu ficar parado pensando diante dessa imagem quimérica. Corri para o criado mudo e procurei por ma faca ou tesoura, sabia que havia algo lá, e encontrei uma tesoura. Com minhas mãos tremendo peguei um tufo de cabelo e cortei. Desci com muito medo minha mão com medo do que poderia ser, quando vejo cabelo loiro em minhas mãos. Não podia acreditar, não podia ser mesmo. Tive que fazer algo mais radical para provar a mim mesmo o que estava acontecendo. Com uma das mãos segurei com força a tesoura e com a outra pus com a palma aberta para cima na altura do nariz e comecei a retirar um de meus olhos (o direito para os curiosos). A dor nem foi sentida diante de tal desespero, a verdade doía mais. Quando consigo retirar minha córnea, desço de novo minha mão e vejo olhos negros, negros como a noite. Só me lembro de que fechei o olho que me restava, caí de joelhos e disse em voz alta

“Eu sou....Eu não sou...Eu nunca fui....Quando me perdi de mim?”



Foto: Clara Grivicich

Texto: Daniel Faleiro



segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Pedaço de Felicidade


Pedaço de Felicidade

Ela não se recorda ao certo quando, ele sempre esteve lá. Doce, delicioso, chegava a achar que ele esteve ali antes mesmo de experimentar o leite materno. Desde pequena a acalentava e dava paz. Apesar de que um dia ele a envolveu e foi embora com aquele aroma que a mais fazia feliz. Se recordava numa vaga lembrança daquele poste agarrando a maleta e dando um beijo de despedida (o último).

Mas ela tinha seu refúgio no sabor que a acompanhava desde... Porém isso foi tirado dela quando já mais crescida:

-Pare de comer tanto chocolate! Você está muito gorda! - Esbravejou sua mãe, certa tarde. Ela nunca a perdoou por transformá-la num pequeno paquiderme.

A partir daí foi um amargo, amargo que não era dele, uma agonia, somente tristeza. Achou que aquele acalento estava perdido para sempre.

Até que um dia, já totalmente crescida, com suas pernas compridas e altura de poste, andou até encontrar aquilo que daria o tal conforto perdido. No meio do caminho encontrou seu próprio chocolate.

Foto: Figo
Texto: Grivicich

sexta-feira, 7 de março de 2008

Morte



João estava deitado na grama do parque de sua cidade quando ao observar as nuvens - coisa que fazia sempre em seus tempos livres, buscava inspiração - viu uma imagem que o deixou perplexo: Viu a morte.

Não sabemos como é a face da morte até vermos, e quando vemos raramente sobrevivemos para contar para outros o que viu e como passou. Em vários povos normalmente algumas pessoas sobrevivem e contam que a morte utiliza foice, espingarda, usa capuz, usa folhagens mortas, as vezes é até O morte. João viu o mundo. O mundo que vive e não um mundo metafísico, um mundo em que nasceu e que agora tira sua vida, um mundo cruel.

No segundo seguinte ao ver o mundo, João foca sua vista em uma pequena parcela de seu mundo, foi se aproximando e se aproximando, quando de repente viu-se na nuvem, a nuvem que outrora tornara-se A morte-mundo, é a Morte-João. Não usava capuz e nem uma foice, vestia-se como ele normalmente se veste.

João ao perceber isso ficou sem ar, sentia-se leve mas não aquela leveza que desejamos, e sim uma leveza de sentir que seu próprio corpo não o pertence. E João não conseguia externalizar o que sentia e a razão d'ele se ver nas nuvens e creio que nós nunca saberemos o que ele sentiu.

As nuvens agora tornaram-se negras. Negras como as expectativas dele.

Então, como se alguma força maior que a Morte triunfasse agora, João de sobresalto corre em direção ao lago do parque e se joga... Horas depois não há nuvens, não há morte e João está limpo de novo.


Daniel Figueiredo

sábado, 1 de março de 2008

Ler ou comer

All you need is written on books
- Sabia que a maioria das mulheres inglesas preferem ler um livro a fazer sexo?
- Nossa... nunca me casaria com um inglês então.
- Você lê muitos livros.
- Você também.
- Eu sei, mas nunca fui de sentar em tudo quanto é lugar e parar para ler.
- Mas agora você é.
- Pq não queria me sentir só, já que você sempre senta em tudo quanto é lugar para ler.
- Gosto muito de ler.
- Mas não sentamos aqui para alimentar nossos estômagos e beber uma cerveja?
- Não, sentamos aqui para ler e beber uma água.
- Pensei que dessa vez fôssemos comer juntos. A gente não costuma fazer isso.
- Verdade, temos que sair pra comer um dia.
- É... um dia...
- É
- Conheci um inglês ontem.
- Que interessante.
- Estou indo pra Inglaterra, tchau tchau.
- Tchau. Me liga.
- Sim.
Ele sai, levando sua bolsa . Ela continua, sem tirar os olhos do livro, como durante a conversa, e pensa alto:
- Eu nunca me casaria com um inglês...

Grivicich
Foto: Daniel

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Chinelos


Aqueles chinelos permaneceram nesta mesma e exata posição por dias, semanas, talvez até mesmo anos. Apesar do chão estar impecável de limpo, assim como o chinelo, ninguém ousava usá-los. Ninguém ousava ousar.
J. costumava usar este par em sua casa, não havia um dia em que eles não se moviam, eram indissociáveis dos pés de seus donos, assim como o coração do corpo.
Claro que um dia o coração pará, torna-se inútil. Assim aconteceu também com estes chinelos. J. estava com seus chinelos e conheceu uma grande pessoa. L. Esta pessoa prometeu o céu, dizia que era o céu que devia se chamar "Sua casa". Este era seu lugar. J. acreditou em suas palavras, mas claro que as palavras só servem quando algo as aprova. J. e L. Fizeram amor, seus corpos se uniram , seus corações bateram como um só, suas respirações tornaram-se "respiração". L. se tornou J. J. tornou-se L. J. L. L. J. Como combinado, logo após ao grande ápice, ao nirvana, a plenitude. J começou a sentir-se leve e como uma pluma e começou a levitar, o chão não mais a pertencia. No lugar de chinelos, asas. No lugar da realidade, SONHOS.

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- Ei, não ganho nem um beijo de despedida e umas palavrinhas bonitas?
- Ah... sabe, não sou muito disso. Tenho que estar no Check-in em poucos minutos. E sabe, nesses momentos eu nunca sei o que dizer, as vezes falo besteiras e .... sabe?
- Não sei, para mim parece que tudo que passamos juntos foi algo fugaz e sem sentido. Me sinto
fraca por não ouvir umas palavras.
- Bem, pode até parecer muito "cliché" mas o que passei com você, não tem palavras para se descrever. Eu já disse que não sei usar muito bem as palavras. Você lembra?
Naquele dia na pizzaria perto da Saldanha? A gente se beijou pela primeira vez saindo de lá, naquela ruela. Poxa, aquilo foi um dos melhores momentos da minha vida.
- Sim, eu me lembro muito bem....
- Então eu não sei falar nada que faça a gente sentir a mesma coisa que sentimos. Palavras são um pouco inúteis.
- Bem, eu entendo. Então quero algo aqui, uma ação, que me faça lembrar de nossa despedida de uma forma especial.
- Ok, eu já tinha pensado nisso. Feche seus olhos....Feche mesmo....Ainda estou te vendo.... Assim....Conte até 10.

Quando abri meus olhos, só pude ver um par de chinelos, aqueles que ele usou na nossa primeira noite e única noite. E ele havia desaparecido. Só seus chinelos. Belos chinelos.

Casal Atencioso



- Então está certo! Vamos decidir no jogo.

Se sentaram e começaram a mexer as peças.

O jogo só precisava estar na cabeça deles, não havia necessidade de peças reais, apenas as imaginárias eram movidas.

Ainda bem que a discussão tinha se iniciado na praça, assim haviam encontrado um jeito bem prático e rápido de findar com aquela disputa que até então se dava em palavras.

Alguém que passasse poderia observar perplexo a avidez com que jogavam o jogo invisível.

Suas discussões sempre levavam horas e nunca chegavam a uma conclusão, certas decisões eram sempre decididas com algo que fosse incontestável, como jogos e sorteios. Quem conhecia esse casal ficava impressionado com a freqüência com que discutiam e mais impressionado ainda com a infinidade dessas discussões.

- Xeque-mate!

- Você estava jogando xadrez? Eu estava jogando damas.
- Ah... Eu estava imaginando outra coisa...

Grivicich
Foto: Daniel

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Xadrez

Eis minha versão desta foto. Curta e simples:

"Ela poderia ter ganho o jogo se não fosse a falta de um rei para se capturar..."

Bêbado e o Homem.

Nesta esquina, sob essa luz artificial a vida acabou para alguém.
Já eram quase duas da manhã quando o bêbado estava saindo do bar - só parou de beber porque sua mão já não aguentava seus movimentos de subir e descer - e foi parado por uma pessoa que ele nunca tinha visto igual, era alguém claro, alto e com voz suave. As palavras que saiam de sua boca apesar de terríveis, eram doces. O bêbado iria morrer, sua estada na Terra havia chegado ao fim e ele não havia aproveitado muito, não havia porque ficar mais sendo um estorvo. Na verdade só mesmo para o dono do bar, ele havia sido nesses últimos anos uma pessoa boa.

Todos que o observavam de dentro do bar, pensaram que ele estava apenas parado na esquina, pensando e balbuciando algumas palavras. Mas o homem em frente dele mostrava-se calmo mesmo dizendo "Você vai morrer agora", e por incrível que pareça, o bêbado estava conversando calmamente com o homem, talvez por estivesse sob efeito do álcool. O que aconteceria quando o bêbado acordasse sóbrio? Mas não acordaria jamais.

Depois de alguns minutos de pedidos de perdão e argumentação, o homem empurrou gentilmente o bêbado contra uma moto que vinha em alta velocidade. E o atingiu. O bêbado foi arremessado de uma forma cinematográfica e, pairando no ar, teve seu primeiro momento de lucidez em quase toda sua vida, disse:
"Eu sou um merda".

Daniel Faleiro

quinta-feira, 30 de agosto de 2007


Foi o medo
O medo o prendeu lá em cima
O medo do desconhecido
É o medo que nos prende, prende a todo instante se deixarmos. A cada passo a frente, a cada segundo que nos leva, lá está ele: O desconhecido.
Nunca podemos saber o que ocorrerá, mesmo se soubermos. Qualquer previsão, qualquer profecia nunca é exatamente o que achamos que vai ser, sempre nos surpreendemos.

E lá estava, uma nova pessoa em sua vida: o desconhecido.
Entrou estrondosamente em seu mundo quieto sem pedir permissão.
"Meu paraíso invadido! Minha paz tomada!" deve ter pensado ele.
Essa situação é para deixar qualquer um apavorado, e nesse pavor, foi isso que ele fez: fugiu. Exilado em seu próprio lar, escondido esperando sabe lá o quê que o desconhecido traria.
O desconhecido trouxe um peso gigantesco e o pôs bem no meio de sua terra, modificando tudo que lá havia. Não reconhecia sua própria morada de infância, o que ele fez com ela? Não conseguia saber, já que o pouco que conseguia enxergar aquela distância não era muito claro, o pouco que sabia tinha sido modificado.
Mas a pessoa foi embora tão rápida e estrondosamente quanto havia chegado, parecia uma eternidade sua presença, que nem foi percebida pelos dias que se sucederam lá em cima.
Desceu finalmente para encontrar o que se fez de desconhecido. No local onde anos atrás ele brincava, agora havia um sólido de madeira de um andar. Olhou e olhou até que subiu na edificação. "Uma vista esplendorosa" pensou.
Se deu por falta de seu irmão, ainda muito amedrontado com tudo isso, mas estava tranqüilo, já que naquele momento ele se deu conta de que O desconhecido trouxe o presente.


Grivicich
Foto: Grivicich

domingo, 19 de agosto de 2007

Sob as luzes amareladas



Sob as luzes amareladas ela caminhava. Quase ninguém na rua. Olhava para o chão.
Não se sabe o que vai encontrar ao se dobrar a esquina de uma dessas ruelas, no mínimo mais uma dessas casas antigas de um charme sem igual.
Acelerava o passo pois já estava atrasada para o encontro, mas antes que pudesse atingir seu destino foi de encontro contra alguém, algo tão inesperado que os dois foram ao chão. Um verdadeiro encontrão.
A figura não demorou a estender a mão. Mas recusando a oferta ela se levantou. Sentiu o cheiro. Era um cheiro gostoso, apaixonante e envolvente. Mas antes que se deixasse envolver ela se lembrou!!! Era dele! Mesmo a luz sendo fraca o reconheceu. Então ela se deu conta que não estava tudo acabado! E antes que pudesse fazer alguma das humilhantes loucuras do passado, antes mesmo que pudesse dar margem a um pedido de desculpas mútuo, seguiu seu caminho.
Mais adiante encontrou sua amiga.
- Que cara é essa?
- Nada. Apenas passei por uma sombra.

Foto: Figo
Texto: Grivicich

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Folhas Secas

Foto: Clara Grivicich


Eles dois caíram como duas folhas solitárias numa árvore em pleno outono, não havia mais esperanças de se sustentarem no galho da mentira, estavam apenas presos minimamente, o vento da verdade cortaria o elo entre essas folhas quase mortas e a árvore.
"Não há mais nada entre nós, né?"
"Apenas esse galho frágil e seco que ainda nos sustenta."
"É, mas logo ele se partirá e não mais teremos algo em comum."
"Você acha que nos salvaremos quando cairmos?"
"Não."
"E se ficarmos não sobreviveremos?"
"Também não"
"Então? Qual a diferença da escolha se teremos o mesmo fim?"
"A questão é que depende se morreremos presos á uma mentira que uma hora ou outra cairá, ou se nos jogamos logo, e morreremos da maneira que quisermos, corajosos, derrotados mas de cabeça erguida."

E assim os dois caíram no final.

Por Daniel Figueiredo.

domingo, 1 de julho de 2007

Imersão


No começo era a letra "B", diriam uns.
No começo... quando tudo se criou
O universo feito de letras e palavras.
As letras desenhando tudo o que há e as palavras surgindo para escrever e fazer existir, todas elas caminhando e se transformando, num grande balé microscópico na essência das coisas.
“As palavras têm poder” irão advertir. Será o poder da própria criação?
!
Toda vez que algo surge um nome é dado. A cada coisa, a cada recém nascido, a todo ser vivente.
O inominável pode ser a destruição suprema ou a criação.

Se o mundo é feito de palavras e letras, esse mundo e o universo a sua volta poderiam ser escritos em um livro?
E esse livro...
Da esquerda pra direita? Da direita para a esquerda? De cima para baixo? De baixo pra cima? Na diagonal? Por todos os lados?

E esse livro..?
Brochura, rolo, tábuas, argila...?
Alguns concordariam comigo, muitos não.

Mergulharia dentro dele em algum momento de insana curiosidade para descobrir o que há dentro de tudo o que há.
Mas sendo uma criadora nata, seria algo desastroso tê-lo em minhas mãos. Algo tão mutável e essencial... desejaria editá-lo pela raiz, fazer do meu jeito.
Mudar uma letra bastaria.
Destruir todas as palavras tal uma bomba atômica

Imagine esse mundo se acabando, todas as letras voando no * *!
O nada tomaria conta e tudo teria de ser escrito de novo, tudo ocorreria de novo, talvez só um pouquinho diferente.

E aí alguém riscaria, rabiscaria, desenharia, faria marcas, símbolos e escreveria uma história maluca sobre um dilúvio que varrera seu mundo fazendo de um novo recomeço.
Então a cada dia fariam formas mais compactas e mais compactas e muito mais compactas para manter marcados esses nomes e as chamariam por um nome, que deliciariam uns e aterrorizariam outros, enquanto poderia também causar muita indiferença. Quem abre esses objetos desvenda parte desse universo, encara todas asquelas letras e mergulha nesse mar.
Um dia alguém, se julgando em posição para tal, irá mudar aquela letra, achando que está fazendo o que deve ser feito, mesmo sabendo ou não o resultado.
E antes que o livro se feche, as letras irão voar novamete.
No começo.

Foto: Figo
Texto: Grivicich

terça-feira, 19 de junho de 2007

Gato

Foto: Clara Grivicich


Olhos de gato

Como se tivesse olhos de gato, fitou-me com mistério. Pareciam rasgar minha alma, pareciam me levar para algum lugar qualquer que não fosse aqui, não neste inferno que estou agora. Me lembrei de todos os momentos em que senti algo parecido com isso, que pudesse descrever usando a caneta da memória, mas nada encontrei. Realmente, tudo isso era novo e diferente. Assustador mas tentador como quando somos crianças e vemos uma sala escura e mesmo com nossas frágeis pernas tremendo seguimos em frente. Quem dera se todos os adultos fossem assim. E acho que chegou minha hora de ser assim, de trazer meu pequeno-eu de volta ao mundo, de tirá-lo desta gaveta que se chama ontem e fazê-lo hoje para que amanhã eu me sinta melhor.

Passaram-se apenas alguns segundos, e você continua parada com seus olhos de gato, estou ainda tentando decifrá-los. Você me convida ao novo mundo que é você, esse mundo novo de mistérios, escuro a espera da luz que você diz ser eu. Eu estou sem forças diante de você, não consigo mover sequer um dedo, não consigo fazer um menor som nesse silêncio, nesse silencioso mundo que você moldou, que brinca comigo e se diverte com esse meu medo.

Continua me encarando com esse seus olhos de gato, percebo que você espera apenas um mínimo gesto meu. Ora eu sou homem, devo tomar iniciativas já que o mundo diz isso. Você não pretende mudar uma nota musical sequer, a pausar parece eterna. Mas agora consigo, consigo rasgar esse silêncio ensurdecedor, consigo contra essa força de toneladas insegurança sob minha força de vontade e consigo romper com toda essa estrutura que você criou em torno de mim. Ganhei de você.

Por Daniel Figueiredo