quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Reflexos


“Há quanto tempo que não encaro o espelho?”

“Será que não me reconheço por não olhar ou nunca mais olhei por não me reconhecer?”

Essas foram as primeiras palavras que disse na parte da manhã enquanto me vestia, olhava meu reflexo (será nosso reflexo quando não nos reconhecemos?), era estranho, parecia que estava mais magro, parecia que perdi uns quilos ou até mesmo a juventude. Não terminei nem de me vestir, o reflexo me incomodara de tal maneira que larguei tudo e fui de cueca tomar meu café.

Chegando na cozinha, preparei meu café de costume (na verdade não foi de costume, pois nunca preparei um café pensando em meu próprio reflexo), e sentado na cadeira comecei a pensar. “Onde foi que eu me perdi de mim mesmo?” “Quando foi que deixei de perceber que meu cabelo começara a cair também?”.

Bem não tinha muito tempo para pensar nisso, tinha que me arrumar para o trabalho. Engoli o café fui para meu quarto de novo.

Estando lá parado, não resisti e olhei de novo a forma que se apresentava diante do meu espelho. Foi então que comecei a perceber certos detalhes antes ocultos. Ele era loiro, tinha olhos negros como a noite e tinha uma grande cicatriz em sua testa. Neste exato momento que tive um misto de alívio e medo. Sorte por que não ser aquele que se apresentava diante de meu espelho (ora eu tinha cabelos negros e olhos claros! E nunca tive cicatriz!), mas assustado por não saber onde minha merda de sombra foi parar.


Já tinham se passado uns minutos quando percebi que não havia tirado o olho do espelho, maldito espelho. Amaldiçoei todas as pessoas que vinham em minha mente, minha namorada, meu chefe, meus amigos, a merda da pessoa que me vendeu esse espelho. “Que merda de espelho! Nem funcionar funciona!” pensei, mas logo voltei a minha sanidade a perceber que espelho nenhum no mundo poderia dar defeito, só se quebra. Quando inteiro não consegue nada além de reproduzir.

O desespero foi aumentando conforme eu percebia que algo de errado devia estar comigo. E que não adiantava de nada eu ficar parado pensando diante dessa imagem quimérica. Corri para o criado mudo e procurei por ma faca ou tesoura, sabia que havia algo lá, e encontrei uma tesoura. Com minhas mãos tremendo peguei um tufo de cabelo e cortei. Desci com muito medo minha mão com medo do que poderia ser, quando vejo cabelo loiro em minhas mãos. Não podia acreditar, não podia ser mesmo. Tive que fazer algo mais radical para provar a mim mesmo o que estava acontecendo. Com uma das mãos segurei com força a tesoura e com a outra pus com a palma aberta para cima na altura do nariz e comecei a retirar um de meus olhos (o direito para os curiosos). A dor nem foi sentida diante de tal desespero, a verdade doía mais. Quando consigo retirar minha córnea, desço de novo minha mão e vejo olhos negros, negros como a noite. Só me lembro de que fechei o olho que me restava, caí de joelhos e disse em voz alta

“Eu sou....Eu não sou...Eu nunca fui....Quando me perdi de mim?”



Foto: Clara Grivicich

Texto: Daniel Faleiro



2 comentários:

Cochise César disse...

hummm
já ansioso pelo conto.

Não sei se vale alguma coisa, mas gostei do blog o bastante para adicionar ao planeta que uso para organiar a minha leitura.
Se interessar: http://planetaki.com/escritoresdainquietitude

Grivicich disse...

Ainda pensando. De fato às vezes ela está lá, mas só um dia nos damos conta e pode ser muito pertubador.