quarta-feira, 23 de setembro de 2009

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Reflexos


“Há quanto tempo que não encaro o espelho?”

“Será que não me reconheço por não olhar ou nunca mais olhei por não me reconhecer?”

Essas foram as primeiras palavras que disse na parte da manhã enquanto me vestia, olhava meu reflexo (será nosso reflexo quando não nos reconhecemos?), era estranho, parecia que estava mais magro, parecia que perdi uns quilos ou até mesmo a juventude. Não terminei nem de me vestir, o reflexo me incomodara de tal maneira que larguei tudo e fui de cueca tomar meu café.

Chegando na cozinha, preparei meu café de costume (na verdade não foi de costume, pois nunca preparei um café pensando em meu próprio reflexo), e sentado na cadeira comecei a pensar. “Onde foi que eu me perdi de mim mesmo?” “Quando foi que deixei de perceber que meu cabelo começara a cair também?”.

Bem não tinha muito tempo para pensar nisso, tinha que me arrumar para o trabalho. Engoli o café fui para meu quarto de novo.

Estando lá parado, não resisti e olhei de novo a forma que se apresentava diante do meu espelho. Foi então que comecei a perceber certos detalhes antes ocultos. Ele era loiro, tinha olhos negros como a noite e tinha uma grande cicatriz em sua testa. Neste exato momento que tive um misto de alívio e medo. Sorte por que não ser aquele que se apresentava diante de meu espelho (ora eu tinha cabelos negros e olhos claros! E nunca tive cicatriz!), mas assustado por não saber onde minha merda de sombra foi parar.


Já tinham se passado uns minutos quando percebi que não havia tirado o olho do espelho, maldito espelho. Amaldiçoei todas as pessoas que vinham em minha mente, minha namorada, meu chefe, meus amigos, a merda da pessoa que me vendeu esse espelho. “Que merda de espelho! Nem funcionar funciona!” pensei, mas logo voltei a minha sanidade a perceber que espelho nenhum no mundo poderia dar defeito, só se quebra. Quando inteiro não consegue nada além de reproduzir.

O desespero foi aumentando conforme eu percebia que algo de errado devia estar comigo. E que não adiantava de nada eu ficar parado pensando diante dessa imagem quimérica. Corri para o criado mudo e procurei por ma faca ou tesoura, sabia que havia algo lá, e encontrei uma tesoura. Com minhas mãos tremendo peguei um tufo de cabelo e cortei. Desci com muito medo minha mão com medo do que poderia ser, quando vejo cabelo loiro em minhas mãos. Não podia acreditar, não podia ser mesmo. Tive que fazer algo mais radical para provar a mim mesmo o que estava acontecendo. Com uma das mãos segurei com força a tesoura e com a outra pus com a palma aberta para cima na altura do nariz e comecei a retirar um de meus olhos (o direito para os curiosos). A dor nem foi sentida diante de tal desespero, a verdade doía mais. Quando consigo retirar minha córnea, desço de novo minha mão e vejo olhos negros, negros como a noite. Só me lembro de que fechei o olho que me restava, caí de joelhos e disse em voz alta

“Eu sou....Eu não sou...Eu nunca fui....Quando me perdi de mim?”



Foto: Clara Grivicich

Texto: Daniel Faleiro



segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Pedaço de Felicidade


Pedaço de Felicidade

Ela não se recorda ao certo quando, ele sempre esteve lá. Doce, delicioso, chegava a achar que ele esteve ali antes mesmo de experimentar o leite materno. Desde pequena a acalentava e dava paz. Apesar de que um dia ele a envolveu e foi embora com aquele aroma que a mais fazia feliz. Se recordava numa vaga lembrança daquele poste agarrando a maleta e dando um beijo de despedida (o último).

Mas ela tinha seu refúgio no sabor que a acompanhava desde... Porém isso foi tirado dela quando já mais crescida:

-Pare de comer tanto chocolate! Você está muito gorda! - Esbravejou sua mãe, certa tarde. Ela nunca a perdoou por transformá-la num pequeno paquiderme.

A partir daí foi um amargo, amargo que não era dele, uma agonia, somente tristeza. Achou que aquele acalento estava perdido para sempre.

Até que um dia, já totalmente crescida, com suas pernas compridas e altura de poste, andou até encontrar aquilo que daria o tal conforto perdido. No meio do caminho encontrou seu próprio chocolate.

Foto: Figo
Texto: Grivicich

sexta-feira, 7 de março de 2008

Morte



João estava deitado na grama do parque de sua cidade quando ao observar as nuvens - coisa que fazia sempre em seus tempos livres, buscava inspiração - viu uma imagem que o deixou perplexo: Viu a morte.

Não sabemos como é a face da morte até vermos, e quando vemos raramente sobrevivemos para contar para outros o que viu e como passou. Em vários povos normalmente algumas pessoas sobrevivem e contam que a morte utiliza foice, espingarda, usa capuz, usa folhagens mortas, as vezes é até O morte. João viu o mundo. O mundo que vive e não um mundo metafísico, um mundo em que nasceu e que agora tira sua vida, um mundo cruel.

No segundo seguinte ao ver o mundo, João foca sua vista em uma pequena parcela de seu mundo, foi se aproximando e se aproximando, quando de repente viu-se na nuvem, a nuvem que outrora tornara-se A morte-mundo, é a Morte-João. Não usava capuz e nem uma foice, vestia-se como ele normalmente se veste.

João ao perceber isso ficou sem ar, sentia-se leve mas não aquela leveza que desejamos, e sim uma leveza de sentir que seu próprio corpo não o pertence. E João não conseguia externalizar o que sentia e a razão d'ele se ver nas nuvens e creio que nós nunca saberemos o que ele sentiu.

As nuvens agora tornaram-se negras. Negras como as expectativas dele.

Então, como se alguma força maior que a Morte triunfasse agora, João de sobresalto corre em direção ao lago do parque e se joga... Horas depois não há nuvens, não há morte e João está limpo de novo.


Daniel Figueiredo

sábado, 1 de março de 2008

Ler ou comer

All you need is written on books
- Sabia que a maioria das mulheres inglesas preferem ler um livro a fazer sexo?
- Nossa... nunca me casaria com um inglês então.
- Você lê muitos livros.
- Você também.
- Eu sei, mas nunca fui de sentar em tudo quanto é lugar e parar para ler.
- Mas agora você é.
- Pq não queria me sentir só, já que você sempre senta em tudo quanto é lugar para ler.
- Gosto muito de ler.
- Mas não sentamos aqui para alimentar nossos estômagos e beber uma cerveja?
- Não, sentamos aqui para ler e beber uma água.
- Pensei que dessa vez fôssemos comer juntos. A gente não costuma fazer isso.
- Verdade, temos que sair pra comer um dia.
- É... um dia...
- É
- Conheci um inglês ontem.
- Que interessante.
- Estou indo pra Inglaterra, tchau tchau.
- Tchau. Me liga.
- Sim.
Ele sai, levando sua bolsa . Ela continua, sem tirar os olhos do livro, como durante a conversa, e pensa alto:
- Eu nunca me casaria com um inglês...

Grivicich
Foto: Daniel

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Chinelos


Aqueles chinelos permaneceram nesta mesma e exata posição por dias, semanas, talvez até mesmo anos. Apesar do chão estar impecável de limpo, assim como o chinelo, ninguém ousava usá-los. Ninguém ousava ousar.
J. costumava usar este par em sua casa, não havia um dia em que eles não se moviam, eram indissociáveis dos pés de seus donos, assim como o coração do corpo.
Claro que um dia o coração pará, torna-se inútil. Assim aconteceu também com estes chinelos. J. estava com seus chinelos e conheceu uma grande pessoa. L. Esta pessoa prometeu o céu, dizia que era o céu que devia se chamar "Sua casa". Este era seu lugar. J. acreditou em suas palavras, mas claro que as palavras só servem quando algo as aprova. J. e L. Fizeram amor, seus corpos se uniram , seus corações bateram como um só, suas respirações tornaram-se "respiração". L. se tornou J. J. tornou-se L. J. L. L. J. Como combinado, logo após ao grande ápice, ao nirvana, a plenitude. J começou a sentir-se leve e como uma pluma e começou a levitar, o chão não mais a pertencia. No lugar de chinelos, asas. No lugar da realidade, SONHOS.

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- Ei, não ganho nem um beijo de despedida e umas palavrinhas bonitas?
- Ah... sabe, não sou muito disso. Tenho que estar no Check-in em poucos minutos. E sabe, nesses momentos eu nunca sei o que dizer, as vezes falo besteiras e .... sabe?
- Não sei, para mim parece que tudo que passamos juntos foi algo fugaz e sem sentido. Me sinto
fraca por não ouvir umas palavras.
- Bem, pode até parecer muito "cliché" mas o que passei com você, não tem palavras para se descrever. Eu já disse que não sei usar muito bem as palavras. Você lembra?
Naquele dia na pizzaria perto da Saldanha? A gente se beijou pela primeira vez saindo de lá, naquela ruela. Poxa, aquilo foi um dos melhores momentos da minha vida.
- Sim, eu me lembro muito bem....
- Então eu não sei falar nada que faça a gente sentir a mesma coisa que sentimos. Palavras são um pouco inúteis.
- Bem, eu entendo. Então quero algo aqui, uma ação, que me faça lembrar de nossa despedida de uma forma especial.
- Ok, eu já tinha pensado nisso. Feche seus olhos....Feche mesmo....Ainda estou te vendo.... Assim....Conte até 10.

Quando abri meus olhos, só pude ver um par de chinelos, aqueles que ele usou na nossa primeira noite e única noite. E ele havia desaparecido. Só seus chinelos. Belos chinelos.

Casal Atencioso



- Então está certo! Vamos decidir no jogo.

Se sentaram e começaram a mexer as peças.

O jogo só precisava estar na cabeça deles, não havia necessidade de peças reais, apenas as imaginárias eram movidas.

Ainda bem que a discussão tinha se iniciado na praça, assim haviam encontrado um jeito bem prático e rápido de findar com aquela disputa que até então se dava em palavras.

Alguém que passasse poderia observar perplexo a avidez com que jogavam o jogo invisível.

Suas discussões sempre levavam horas e nunca chegavam a uma conclusão, certas decisões eram sempre decididas com algo que fosse incontestável, como jogos e sorteios. Quem conhecia esse casal ficava impressionado com a freqüência com que discutiam e mais impressionado ainda com a infinidade dessas discussões.

- Xeque-mate!

- Você estava jogando xadrez? Eu estava jogando damas.
- Ah... Eu estava imaginando outra coisa...

Grivicich
Foto: Daniel